segunda-feira, junho 12, 2006

Essência e Realidade

O pensamento de Nietzsche expresso n’O Nascimento da Tragédia desenvolve duas linhas ideológicas distintas mas ligadas, a da filosofia estética, fundamentada na procura da explicitação do conceito de arte, e a da definição das profundas formas que relacionam a essência do Homem à intensidade e vivência artísticas. Para qualquer uma das perspectivas, o próprio título da obra funciona perfeitamente, já que ela se debruça, mediante um autêntico mergulho na história da arte e no interior do Ser Humano, sobre o estudo da forma artística que, segundo Nietzsche, é a mais elevada, a Tragédia Ática, e sobre a descoberta da tragédia original que é a essência humana em si.
O mundo humano alicerça−se na batalha perpétua entre duas forças, dois princípios formadores e antagónicos − um deles constitui a fonte das imagens, das formas, do mundo visível; o outro representa a realidade por detrás dessa dimensão imagética e fenomenal, a eterna torrente de destruição e criação, violenta, abrupta e cruel. A obra de arte nasce da reconciliação entre os dois princípios que, pela mão da Natureza, expressão artística primordial e suprema, ou pela mão do Homem, elemento da Natureza que, pela sua faculdade racional adquire a capacidade de a imitar na criação artística, ganha corpo sensível. Esta reconciliação entre as forças artísticas naturais mais não é do que a transmutação para o visível, sob as mais variadas formas e imagens, da realidade destrutiva e ao mesmo tempo criativa, dinâmica que constantemente se opera sobre a Natureza, evitando que esta caia na imobilidade e assumindo o papel regenerador e inovador do Tempo. Quando a acção do Homem coincide com a imitação da simbiose entre os dois princípios, da força conjunta que permite a mutação eterna da Natureza, alcança−se a obra de arte humana. Assim, o Ser Humano não abandona nunca o seu estatuto de elemento natural, o que lhe permite aceder à essência primordial, comum a toda a Natureza, e de onde brota a torrente da criação artística. Todavia, a vida humana é quase sempre regida pelo princípio da imagem, da aparência, da medida, que encerra a nossa existência na individuação e faz com que nos “esqueçamos” da nossa verdadeira essência comum, da noção de que fazemos parte do Uno Primordial. Os momentos de criação artística são aqueles em que, rasgando as correntes da individuação, acedemos, extasiados, à revolta corrosiva e inovadora do nosso interior, transportando essa força para o mundo visível.
A civilização clássica da Grécia Antiga, manifestou sempre, nos vários parâmetros da sua cultura, a percepção clara acerca desta visão sobre o Ser Humano, a arte e o mundo. Na sua religião e mitologia surgiram figuras representativas das duas forças naturais já citadas: Apolo, deus da luz, da medida e da bela aparência, incorporava o princípio do mundo visível e aparente; Diónisos, divindade relacionada com a exuberância, o êxtase e a obscuridade, personificava o princípio da violência, destruição e da verdadeira realidade e essência. A influência apolínea no modo de vida dos gregos era praticamente total − o apolinismo, muito embora significasse um afastamento consciente em relação à realidade e ao Uno Primordial constituía a única forma de estabelecimento de uma sociedade ordenada e organizada. A crítica à desmesura dionisíaca, a aceitação da vida na aparência, na ilusão, no sonho apolíneo, foram um dos pilares estruturantes da civilização clássica, mãe da cultura hoje vigente no mundo ocidental.
Na verdade, a aproximação excessiva ao impulso dionisíaco seria de tal modo violento e destrutivo que conduziria o Homem à dor insuportável e à morte. Em contacto permanente com a realidade dionisíaca e com a unidade original, o Ser Humano descobriria a sua verdadeira essência − a de não ser mais do que um elemento da Natureza, reduzindo−se à insignificância de nada poder fazer para alterar fosse o que fosse na realidade efectiva, abandonando−se à tragédia que é viver constantemente submerso no mais revolto de todos os mares, da realidade, submetido e resignado perante a terrível verdade: nada na vida humana, na tão aclamada vontade do Homem, pode alterar seja o que for, a não ser no mundo da ilusão e do sonho luminoso de Apolo. A essência do Homem é o suicídio da sua vontade, é a sua auto−destruição.
Eis que nos encontramos perante a tragédia última e ao mesmo tempo primeira, a que constitui a essência humana. O paradoxo da nossa existência é encontrarmos a vida na ilusão e a morte na realidade. A percepção da essência em cada um de nós quase nos deixa ouvir as gargalhadas do velho Sileno, companheiro de Diónisos, à medida que ditava a ignóbil sentença que a realidade tem para nos dar, somos desgraçados por termos nascido e mais desgraçados seremos por cada momento que vivamos.
Conscientes da real condição humana, os gregos escolheram, como já foi dito, entregar−se à vivência apolínea. Embora um abismo se cavasse entre esta e a realidade, o apolinismo dava uma finalidade à vida, permitia a sobrevivência ainda que num sonho. E essa finalidade, essa justificação para a existência afastada da realidade, é a arte, ou seja o transporte de alguma da força essencial e original, do dionisismo, para o mundo da aparência apolíneo. Assim, a reconciliação momentânea do génio dionisíaco com o génio apolíneo surge como a única forma de dar significado à vida na ilusão.
Chegamos assim à Tragédia Ática, forma artística superior por conseguir expressar, como nenhuma outra o encontro entre os dois génios. A Tragédia Ática, que teve em Esquilo o grande mentor, tinha dois compostos principais, o coro de sátiros e os actores do drama. O coro era constituído, basicamente, pela audiência do espectáculo, conjunto de pessoas que, conduzidas ao êxtase, se aproximavam do mundo dionisíaco. O seu papel era, precisamente, o de trazer a agitação e a embriaguês da trágica essência humana para a representação. Os elementos do coro despiam e rasgavam, à medida que se afastavam do apolinismo, o seu véu de individuação, manifestando nos seus actos o Uno Primordial, condição essencial de todas as coisas que os aglomerava a todos no sentimento do ser comum origina. Por outro lado, ao mesmo tempo que se dava a exaltação do coro, um grupo de actores dramatizava uma narrativa de cariz fortemente mitológico, transmitindo sempre a ideia de que, apesar da beleza do mundo apolíneo aparentar ser real, era para além dela que se encontrava a essência do Homem, na verdadeira tragédia do “assassínio” dionisíaco.
A civilização grega é o pilar principal sobre o qual assenta a cultura ocidental dos nossos dias. As marcas da consciência acerca da problemática existencial do Homem, às quais a obra de Nietzsche, O Nascimento da Tragédia, dedica o seu desenvolvimento, fazem, portanto, parte do nosso dia-a-dia civilizacional. A grande diferença é, talvez, o facto de termos perdido a noção desta problemática.
TP

segunda-feira, maio 08, 2006

Dionysos

Entre as árvores escuras e caladas
O céu vermelho arde,
E nascido da secreta cor da tarde
Dionysos passa na poeira das estradas.

A abundância dos frutos de Setembro
Habita a sua face e cada membro
Tem essa perfeiçao vermelha e plena,
Essa glória ardente e serena
Que distinguia os deuses dos mortais.


Sophia de Mello Breyner Andresen
in Dia do Mar (1947)

Apolo musageta

Eras o primeiro dia inteiro e puro
Banhando os horizontes de louvor.

Eras o espírito a falar em cada linha
Eras a madrugada em flor
Entre a brisa marinha.
Eras uma vela bebendo o vento dos espaços
Eras o gesto luminoso de dois braços
Abertos sem limite.
Eras a pureza e a força do mar
Eras o conhecimento pelo amor.

Sonho e presença
de uma vida florindo
Possuída e suspensa.

Eras a medida suprema, o cânon eterno
Erguido puro, perfeito e harmonioso
No coração da vida e para além da vida
No coração dos ritmos secretos.


Sophia de Mello Breyner Andresen
in Poesia I (1944)



S.C. 12

segunda-feira, maio 01, 2006

Curta Curiosidade

Alguns excertos de composições musicais de Friedrich Wilehm Nietzsche.

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sexta-feira, abril 14, 2006

Friedrich Wilhelm Nietzsche

F.W. Nietzsche em 1871


I

A VIDA


A 15 de Outubro de 1844, em Röcken, perto de Leipzig, nasce Friedrich Wilhelm Nietzsche. Destinado, como o pai, a ser pastor protestante, acabou por abandonar a vida religiosa e dedicar-se à filologia após uma carreira de estudante com mérito. Por volta dos 14 anos lê Schiller e Hölderlin, figuras maiores da cultura germânica. Estuda ainda, nestes tempos do início, as obras de Platão e de Ésquilo. Tomando a filologia como uma disciplina maior, desenvolve trabalhos muito criativos nesta área sobre Diógenes Laércio, Hesíodo e Homero. É evidente nele, desde muito cedo, o interesse pela cultura grega, pela história e análise do pensamento clássico grego. Aos 25 anos é nomeado professor de filologia em Basileia. Só após a leitura da obra maior de Schopenhauer, O Mundo como Vontade e Representação, Nietzsche se interessa pela filosofia. Este interesse surge de mão dada com o interesse pela música, a qual entendia numa dimensão metafísica. É por volta dos 23 anos que entra em contacto com o compositor mais revolucionário da cultura musical, Richard Wagner, então com 55 anos de idade. O drama musical wagneriano, o Tristão e Isolda e Os Mestres Cantores, arrebataram o jovem professor que Nietzsche então era. Passa temporadas na casa de Wagner à beira do Lago Lucerna e consta que também aí se apaixonou perdidamente por Cosima, jovem esposa do compositor.
É nessa época que se dedica a esboçar a obra que estabeleceria as relações entre a Tragédia Grega e a Música, a saber, O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. Só em 1871 sai a público a obra que resulta de tais esboços: A Origem da Tragédia ou Mundo Grego e Pessimismo [Die Geburt der Tragödie oder Griechentum und Pessimismus]. O resumo da tese central exprime-se num lamento acerca da decadência da Tragédia Grega, contaminada pelo racionalismo socrático. Para Nietzsche, a Tragédia Grega, depois de ter alcançado a perfeição pela conciliação da «embriaguês e da forma», do dionisismo e do apolíneo, entra em acelerado declínio ao ser invadida pelo racionalismo decadente de Sócrates.
O êxito não surge a Nietzsche de imediato. As teses de A Origem da Tragédia não são bem acolhidas e até a sua relação com Wagner entra rapidamente em decadência depois do desconsolo estético que seria, para Nietzsche, a estreia em Bayreuth, de O Anel dos Niebelungos. A rotura acaba por verificar-se quando o filósofo interpreta as novas inclinações religiosas do músico como uma cedência inaceitável ao pessimismo decadente, entendendo a direcção estética tomada como uma traição ao «renascimento da grande arte da Grécia».
São deste tempo de crise as obras Humano, Demasiado Humano (1879), O Viandante e a sua Sombra(1880) e Aurora (1881), onde continua a sua luta contra a decadência, o pessimismo e a moral de auto-renúncia. Nos sete anos seguintes surgem as obras A Gaia Ciência, Assim Falou Zaratustra, Para Além do Bem e do Mal, A Genealogia da Moral, O Caso Wagner e Crepúsculo dos Ídolos. Ecce Homo, Ditirambos Dionisíacos, O Anticristo e A Vontade de Poder, são obras resultantes do seu último ano de produção intelectual. A partir de 1888 a saúde mental do filósofo entra em quebra e acaba por levá-lo ao internamento num hospital psiquiátrico de Basileia. No dia 25 de Agosto de 1900, Nietzsche morre na cidade de Weimar.

quinta-feira, março 16, 2006

A moral kantiana distingue três tipos de acções, partindo esta distinção da ideia de que o valor moral de qualquer forma de agir só pode ser atibuído pela análise da máxima que a sustenta. As máximas são os princípios subjectivos da acção, a expressão prática da Razão - e sendo a Razão o Bem Supremo, a lei Moral objectiva - torna-se evidente que quando a vontade, ignorando todas as inclinações exteriores e formulando-se unicamente em torno da força racional que lhe é interior e própria, as máximas que dela resultam só poderão originar acções morais, por respeito à razão. Daqui retiramos a ideia de que só quando a máxima que motiva a nossa acção coincide perfeitamente com essa lei superior que é a Razão Universal, a nossa conduta pode ser considerada realmente livre, em situação nenhuma constrangida por inclinações não racionais.
Por outro lado, quando a nossa vontade subjectiva é influenciada por algo que lhe é exterior, algo não pertencente à esfera puramente racional do Homem mas antes à sua faceta temporal, as máximas que dela resultam mobilizarão as acções no sentido da imoralidade( quando contrárias à moral) ou da amoralidade ( quando, embora assumindo a forma de uma acção por dever, ou seja por respeito à razão, o seu pricípio subjectivo não é correspondente à moral).
Deste modo, a filosofia moral kantiana opõe-se à utilitarista, avaliando-se as acções sempre no plano do seu princípio e nunca no do seu propósito. As acções praticadas por seres racionais devem ser tomadas tendo em vista uma representação transcendental da Razão nas máximas que as suportam.
17 TP

quinta-feira, março 02, 2006

Bairro do Amor




No bairro do amor a vida é um carrossel
Onde há sempre lugar para mais alguém
O bairro do amor foi feito a lápis de côr
Por gente que sofreu por não ter ninguém

No bairro do amor o tempo morre devagar
Num cachimbo a rodar de mão em mão
No bairro do amor há quem pergunte a sorrir:
Será que ainda cá estamos no fim do Verão?

Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair-me um pouco
Eu sei que tu compreendes bem

No bairro do amor a vida corre sempre igual
De café em café, de bar em bar
No bairro do amor o Sol parece maior
E há ondas de ternura em cada olhar

O bairro do amor é uma zona marginal
Onde não há prisões nem hospitais
No bairro do amor cada um tem que tratar
Das suas nódoas negras sentimentais

Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair-me um pouco
Eu sei que tu compreendes bem


Jorge Palma



O projecto
do Bairro do Amor não estará muito longe do projecto da Metafísica dos Costumes.
Talvez sejam apenas as diferenças arquitectónicas o que os separa.
Um objectivo comum. (Um Reino dos Fins. Um Bairro do Amor.)
2BS

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Obrigação e Dever

«Existe obrigação. Uma crítica da razão prática não é, pois, a demonstração da existência no homem de um conceito de dever, ela é o desenvolvimento racional de um dado da experiência simultaneamente indubitável e inexplicável: a consciência da lei moral. (...) Enquanto que a natureza obedece às leis que a ciência determina por meio da sua démarche cognitiva, o sujeito humano, como sujeito livre, não pode conceber a lei moral senão como uma regra que pode ou não ser aplicada. Portanto, não se vai tratar de estudar a experiência dos costumes para determinar as suas constantes, mas de enunciar simplesmente aquilo que o sujeito deve fazer, quer o faça ou não.
[Olivier Dekens; Compreender Kant.]

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Glória a Immanuel Kant

Fotografias do mausoléu de Immanuel Kant e sua estátua, ambas de Konigsberg.




4F.A.

segunda-feira, janeiro 02, 2006




" Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: o CÉU estrelado sobre mim e a LEI MORAL em mim"

A primeira começa no lugar que eu ocupo no mundo exterior dos sentidos e estende a conexão em que me encontro até ao imensamente grande, com mundos sobre mundos e sistemas sobre sistemas, nos tempos ilimitados do seu periódico movimento, do seu começo e da sua duração.

A segunda começa no meu invisível eu (...) e expõe-me num mundo que tem a verdadeira infinidade, mas que só se revela ao entendimento, e com o qual (e assim também com todos esses mundos visíveis) me reconheço numa conexão, não simplesmente contingente,(...) mas universal e necessária.

O primeiro espectáculo de uma inumerável multidão de mundos aniquila (...) a minha importância como criatura animal que deve restituir ao planeta (um simples ponto no universo) a matéria de que era feita, depois de, por um breve tempo (não se sabe como) ter sido provida de força vital.

O segundo, pelo contrário, eleva infinitamente o meu valor como inteligência por meio da minha personalidade, na qual a LEI MORAL me descobre uma vida independente da animalidade e mesmo de todo o mundo sensível, pelo menos, tanto quanto se pode inferir da destinação conforme a um fim da minha existência por essa lei, que não se restringe a condições e limites desta vida, mas se estende até ao infinito"

Immanuel Kant; Crítica da Razão Prática.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

FÉDON - The End




Chegámos ao fim desta complexa obra de Platão onde pudemos assistir a uma discussão sobre a imortalidade da alma através de Sócrates que, ao mesmo tempo que tenta provar a imortalidade da alma aos presentes, responde às objecções de Símias e Cebes por via de vários argumentos.
Agora, que acabou esta brilhante obra, começaremos uma da autoria de Kant chamada "Fundamentação da Metafísica dos Costumes" e que espero que seja tão interessante como a de Platão.
"O homem perfeito e harmonioso é aquele que sabe unir a formação espiritual à aptidão física, submetendo-as ao serviço da alma" Platão

JP9

sábado, dezembro 03, 2005

Problemática do Fédon

Terça-feira, 10.15h, aula de Filosofia, Platão, Fédon, tema: a imortalidade da alma. Lol. E eu que achava que já não havia pessoas que se interessassem por este tipo de problemas, ou as pessoas que se interessassem, era porque não tinham mais nada para fazer. Mais, pensava que este assunto não interessava nada, que apenas fosse uma mera questão de uma qualquer religião, dessas tantas inventadas pelo Homem. Mas afinal enganei-me, o problema da imortalidade da alma, aparece-nos configurado, como um assunto importante e que deve fazer com que todos parem e pensem um pouco nele.
Reconheço que não é dos melhores assuntos que possam ser tratados numa aula de Filosofia, mas como é estruturado sobre a forma de diálogo e apresenta boas argumentações e objecções às mesmas, acaba por ter o seu interesse.
Assim, este problema surge-nos quando Equécrates pede a Fédon que lhe relate como foi a morte de Sócrates. Este relatou pormenorizadamente tudo o que aconteceu, visto que estava presente, desde a chegada dos discípulos para a última visita a Sócrates até ao momento em que este toma a cicuta e morre. Nesse intervalo de tempo, Sócrates não parou de falar, de filosofar, e segundo ele, nunca o tinha feito tão bem, comparando-se até aos cisnes, que quando pressentem a morte dão o seu canto mais belo.
Mas o que o faz estar tão sereno e contente se ia morrer?
Tudo começa aqui, Sócrates estava contente apesar de saber que a morte o esperava pois acreditava que a sua alma era imortal, e que depois do seu corpo morrer a sua alma ia para o Hades onde ficaria, confratenizando com os Deuses para a eternidade.
E o que faria com que ele acreditasse, com tanta segurança, que ia para o Hades?
Bem, Sócrates dizia que um ser era constituído por um corpo que pertencia ao mundo do sensível, e por uma alma, que pertencia ao mundo das ideias. Ele achava que a alma era a ideia que concretizava nela todas as outras ideias e todo o saber. Mas quando a alma cai para o mundo sensível, ficando aprisionada num corpo, esquece tudo.
E o que a faz lembrar?
A Filosofia, pois esta vai servir de reminiscência, para que a alma se volte a lembrar de todo o seu saber. Assim a filosofia constitui um caminho para a purificação da alma para que esta pudesse ficar no Hades. Ora, como Sócrates se afirmou filósofo, ao longo da sua vida, negando sempre o que era relativo ao materialismo (que corrompia a alma) sentia-se perfeitamente seguro de que ia para o Hades. A partir deste ponto é que começa a surgir o problema da imortalidade da alma.
Afinal como se explica essa propriedade?
Sócrates usa a teoria dos contrários, da reminiscência e da transmigração das almas. No entanto vai sendo questionado por Símias e Cebes (presentes nas suas útilmas horas de vida) que vão colocando objecções, tais como a teoria da alma/harmonia ou a teoria do manto e do tecelão, as quais vão mesmo encontrar pontos por explorar na argumentação de Sócrates, deixando-o irritado, elevando-o a contradições.
Qual a resolução deste problema, não sei, e não sei se existe uma, eu acho que não!
Resta-me deixar uma sugestão a quem pensa que tem uma vida cheia de grandes problemas, leiam o Fédon e verão que há problemas bem mais complicados.

I.H.7

sexta-feira, novembro 25, 2005

Cérbero, o eterno companheiro de Carontes

Cérbero, o guardião do Hades, apenas 2 vezes abandonou o seu posto. Uma, ao ser sujeito ao encantamento de Orfeu; a outra, enquanto vítima das tarefas de Hércules. Bichinho dedicado!

Entras ou não?

Cérbero, o “cão do Hades”, um dos monstros que guardava o reino dos Mortos. Segundo diziam teria três cabeças de cão, uma cauda formada por uma serpente e teria no dorso várias cabeças de serpente. Estava diante do portão do Hades, impedindo que os vivos lá entrassem, e que alguém de lá saísse. Contudo qual será o verdadeiro simbolismo do nome Cérbero?
Como sabemos é o cérebro que coordena os nossos pensamentos e estímulos mais complexos, comandando assim o nosso corpo e os comportamentos a ele inerente.
Olhando agora a teoria socrática da imortalidade da alma, sabemos que apenas atingem o Mundo Inteligível as almas mais puras, e que essa pureza apenas se alcança pelo recurso à filosofia. Compreenderemos então que o cérebro, enquanto intérprete da nossa vontade, irá decidir sobre o nosso estilo de vida, ou seja, se esta será dedicada aos prazeres corporais, ou se pelo contrário nos iremos dedicar ao pensamento filosófico.
Portanto será sempre o cérebro, seja ele físico ou mitológico, que irá ditar a entrada ou não da alma no Hades.


G.B.6

terça-feira, novembro 22, 2005

Branco moído.


Inventando, no quintal, sentadas no parapeito, fantasmas nas nuvens disformes. Joana não fora capaz de ver bombas, como eu vi, e ainda menos explosões de futilidades que de tantas nuvens eram forma. ‘Póneis!’dizia, esticando o braço e abrindo muito aqueles olhos que hoje pareciam-me cor de rosa. E foi, num aparato de luz e de medo, que fizemos uma estrela cair, que só nós vimos. Nós que víamos tudo sem precisarmos de abrir os olhos ou sequer dar as mãos. Soltávamos a imaginação e tudo ia preso aos seus atacadores que eram tão grossos e compridos como as cordas de um barco. Precisávamos dos olhos para ver a luz, é verdade, mas precisávamos apenas de nós para saber como segui-la, descendo o nosso rio cinzento. Manipulando os genes que nos compunham, recusando a palpável essência que ora está com comichões, ora está despenteada.
Ela assobiava… E os póneis dançavam ao ritmo da sua melodia, aquela que ela nunca ouviu mas que é tão sua como o seu cabelo. A mim, tudo parecia trágico! O seu canto angelical parecia-me anunciar a perpetua queda do mundo num buraco sem fim, sem cordas, sem paredes. Ouvia até o tic tac do relógio, que jamais pararia, daquelas bombas sem asas que enchiam o céu. Mas ela sorria… e isso acalmava-me mais que ouvir o meu CD preferido de jazz. Na sua íris, o mundo estava calmo…
Apenas concordamos que o parapeito onde nos sentamos estava frio e que as flores também o sentiam.
Levantamo-nos, ela desapareceu, e eu rasguei a folha.

domingo, novembro 13, 2005

Hades


E eis aqui uma representação de Hades, local onde as almas param quando o seu corpo morre e onde, de um lado do rio ficam à espera que haja um novo corpo para habitar e do outro (no último plano da imagem)encontram os sabios, bons e justos. A alma que viaja de corpo em corpo e pode decidir-se por duas vias: agarrar-se ao que é carnal, ligar-se de tal modo ao corpo que viva para sempre no Mundo Sensível (passando de corpo para corpo sempre que um morre) ou então pode acabar com essas ditas incontinências, as demasias e então libertar se finalmente do Mundo das coisas sensíveis e ir “habitar” para o outro lado do rio, no Mundo Inteligível, junto dos heróis, dos bons, do que é perfeito e infinito.
4.F.A.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Antiga Dor

O súbtil, o reflexo, o vago, o indefinido,
Tudo o que o nosso olhar só vê por um momento
Tudo o que fica na Distância diluído,
Como num coração a voz do sentimento.
Tudo o que vive no lugar onde termina
Um amor, uma luz, uma canção, um grito,
A última onda duma fonte cristalina,
A última nebulosa etérea do Infinito...
Esse país aonde tudo principia
A ser névoa, a ser sombra ou vaga claridade,
Onde a noite se muda em clara luz do dia,
Onde o amor começa a ser uma saudade;
O longínquo lugar onde o que é real
Principia a ser o sonho, esperança, ilusão;
O lugar onde nasce a aurora do Ideal
E aonde a luz começa a ser escuridão...
A última fronteira, o último horizonte,
Onde a Essência aparece e a Forma terminou...
O sítio onde se muda a natureza inteira
Nessa infinita Luz que a mim me
deslumbrou!...
O indefinido, a sombra, a nuvem, o apagado,
O limite da luz, o termo dum amor,
Tornou o meu olhar saudoso e magoado,
Na minha vida foi minha primeira dor...
Mas hoje, que o segredo oculto da Existência,
Num momento de luz, o soube desvendar,
Depois que pude ver das Cousas a essência
E a sua eterna luz chegou ao meu olhar,
Meu infinito amor é a Alma universal,
Essa nuvem primeira, essa sombra d'outrora...
O Bem que tenho hoje, é o meu antigo Mal,
A minha antiga noite é hoje a minha aurora!...

Teixeira de Pascoaes, in Sempre (1898)

3dt

quinta-feira, novembro 03, 2005



Aristocles de Atenas, Filho de Aríston
(Platão)
428 a.C. - 348/7 a. C

terça-feira, novembro 01, 2005

Sem nome

Quando nasci os médicos bateram palmas no meu rabo
A minha mãe deu-me leite, beijos e um bilhete só de ida
Foi no mesmo dia em que nasci
que na minha mão recebi
um bilhete para o fim da vida.

Ninguém é alguém ao nascer
Eu sou mais eu no dia em que morrer

Cada dia que viver
é sempre mais um dia
o fim não é morrer
o fim é a alegria
Por cada dia mais que viver
Estarei mais perto de morrer
E é por isso que
Por cada dia mais que viver
Estarei mais perto do Saber,
Estarei mais perto do meu ser.


2BS

segunda-feira, outubro 24, 2005

Libertação

Não há doença ou mal que me afaste do meu objectivo
Por esta breve caminhada que sou obrigado a percorrer
Para quê dar-me ao pecado? Ao prazer? Ao sofrimento?
Se só vivo unicamente para morrer?

O que eu vejo é o que eu toco é o que eu oiço...
O que me aquece é também o que me gela
Porque tudo o que sinto me engana
Preciso de me soltar desta cela.

Porque tudo corre para a libertação
Porque todo o princípio tem um fim
Fugir ao corpo é conhecer, é viver
Seria o melhor "castigo" possível para mim.

Deixa-me viver... no infinito e mais além...

1B.S.

terça-feira, outubro 18, 2005

Reflexão

Projecto Filo 12D

Vamos começar com humildade intelectual. O que aqui deixarmos são apenas "impressões" que vão crescendo. Pormenores sensíveis na viagem que começa. Ora acompanhados pela consistência meândrica de Platão, depois talvez re-orientados pelo absurdo rigor de Kant e, mais além, para alegrar a caminhada final, uma enérgica corrida dionisíaca com Nietzsche.
Mais tarde ou mais cedo haverá um ligeiro e terno sorriso em face dos primeiros passos, lado a lado, com os gigantescos espectros da civilização. Ao caminho!!!