Essência e Realidade
O mundo humano alicerça−se na batalha perpétua entre duas forças, dois princípios formadores e antagónicos − um deles constitui a fonte das imagens, das formas, do mundo visível; o outro representa a realidade por detrás dessa dimensão imagética e fenomenal, a eterna torrente de destruição e criação, violenta, abrupta e cruel. A obra de arte nasce da reconciliação entre os dois princípios que, pela mão da Natureza, expressão artística primordial e suprema, ou pela mão do Homem, elemento da Natureza que, pela sua faculdade racional adquire a capacidade de a imitar na criação artística, ganha corpo sensível. Esta reconciliação entre as forças artísticas naturais mais não é do que a transmutação para o visível, sob as mais variadas formas e imagens, da realidade destrutiva e ao mesmo tempo criativa, dinâmica que constantemente se opera sobre a Natureza, evitando que esta caia na imobilidade e assumindo o papel regenerador e inovador do Tempo. Quando a acção do Homem coincide com a imitação da simbiose entre os dois princípios, da força conjunta que permite a mutação eterna da Natureza, alcança−se a obra de arte humana. Assim, o Ser Humano não abandona nunca o seu estatuto de elemento natural, o que lhe permite aceder à essência primordial, comum a toda a Natureza, e de onde brota a torrente da criação artística. Todavia, a vida humana é quase sempre regida pelo princípio da imagem, da aparência, da medida, que encerra a nossa existência na individuação e faz com que nos “esqueçamos” da nossa verdadeira essência comum, da noção de que fazemos parte do Uno Primordial. Os momentos de criação artística são aqueles em que, rasgando as correntes da individuação, acedemos, extasiados, à revolta corrosiva e inovadora do nosso interior, transportando essa força para o mundo visível.
A civilização clássica da Grécia Antiga, manifestou sempre, nos vários parâmetros da sua cultura, a percepção clara acerca desta visão sobre o Ser Humano, a arte e o mundo. Na sua religião e mitologia surgiram figuras representativas das duas forças naturais já citadas: Apolo, deus da luz, da medida e da bela aparência, incorporava o princípio do mundo visível e aparente; Diónisos, divindade relacionada com a exuberância, o êxtase e a obscuridade, personificava o princípio da violência, destruição e da verdadeira realidade e essência. A influência apolínea no modo de vida dos gregos era praticamente total − o apolinismo, muito embora significasse um afastamento consciente em relação à realidade e ao Uno Primordial constituía a única forma de estabelecimento de uma sociedade ordenada e organizada. A crítica à desmesura dionisíaca, a aceitação da vida na aparência, na ilusão, no sonho apolíneo, foram um dos pilares estruturantes da civilização clássica, mãe da cultura hoje vigente no mundo ocidental.
Na verdade, a aproximação excessiva ao impulso dionisíaco seria de tal modo violento e destrutivo que conduziria o Homem à dor insuportável e à morte. Em contacto permanente com a realidade dionisíaca e com a unidade original, o Ser Humano descobriria a sua verdadeira essência − a de não ser mais do que um elemento da Natureza, reduzindo−se à insignificância de nada poder fazer para alterar fosse o que fosse na realidade efectiva, abandonando−se à tragédia que é viver constantemente submerso no mais revolto de todos os mares, da realidade, submetido e resignado perante a terrível verdade: nada na vida humana, na tão aclamada vontade do Homem, pode alterar seja o que for, a não ser no mundo da ilusão e do sonho luminoso de Apolo. A essência do Homem é o suicídio da sua vontade, é a sua auto−destruição.
Eis que nos encontramos perante a tragédia última e ao mesmo tempo primeira, a que constitui a essência humana. O paradoxo da nossa existência é encontrarmos a vida na ilusão e a morte na realidade. A percepção da essência em cada um de nós quase nos deixa ouvir as gargalhadas do velho Sileno, companheiro de Diónisos, à medida que ditava a ignóbil sentença que a realidade tem para nos dar, somos desgraçados por termos nascido e mais desgraçados seremos por cada momento que vivamos.
Conscientes da real condição humana, os gregos escolheram, como já foi dito, entregar−se à vivência apolínea. Embora um abismo se cavasse entre esta e a realidade, o apolinismo dava uma finalidade à vida, permitia a sobrevivência ainda que num sonho. E essa finalidade, essa justificação para a existência afastada da realidade, é a arte, ou seja o transporte de alguma da força essencial e original, do dionisismo, para o mundo da aparência apolíneo. Assim, a reconciliação momentânea do génio dionisíaco com o génio apolíneo surge como a única forma de dar significado à vida na ilusão.
Chegamos assim à Tragédia Ática, forma artística superior por conseguir expressar, como nenhuma outra o encontro entre os dois génios. A Tragédia Ática, que teve em Esquilo o grande mentor, tinha dois compostos principais, o coro de sátiros e os actores do drama. O coro era constituído, basicamente, pela audiência do espectáculo, conjunto de pessoas que, conduzidas ao êxtase, se aproximavam do mundo dionisíaco. O seu papel era, precisamente, o de trazer a agitação e a embriaguês da trágica essência humana para a representação. Os elementos do coro despiam e rasgavam, à medida que se afastavam do apolinismo, o seu véu de individuação, manifestando nos seus actos o Uno Primordial, condição essencial de todas as coisas que os aglomerava a todos no sentimento do ser comum origina. Por outro lado, ao mesmo tempo que se dava a exaltação do coro, um grupo de actores dramatizava uma narrativa de cariz fortemente mitológico, transmitindo sempre a ideia de que, apesar da beleza do mundo apolíneo aparentar ser real, era para além dela que se encontrava a essência do Homem, na verdadeira tragédia do “assassínio” dionisíaco.
A civilização grega é o pilar principal sobre o qual assenta a cultura ocidental dos nossos dias. As marcas da consciência acerca da problemática existencial do Homem, às quais a obra de Nietzsche, O Nascimento da Tragédia, dedica o seu desenvolvimento, fazem, portanto, parte do nosso dia-a-dia civilizacional. A grande diferença é, talvez, o facto de termos perdido a noção desta problemática.











